Os problemas da candidatura presidencial de algum herói nacional

Samba de uma nota só não dá enredo

Por Rono Bhering 12/05/2020 - 14:11 hs
Os problemas da candidatura presidencial de algum herói nacional
Dois (ex) heróis nacionais

            O novo Luciano Huck se chama Sérgio Moro. Sempre que o assunto é eleições presidenciais existem nomes que saem de cena mais rápido do que aparecem. Silvio Santos, Joaquim Barbosa, Datena e uma infinidade de alcunhas que o público, devido a algum fato corriqueiro, sugere que se candidatem para “salvar” o país. Mas por qual motivo a tal candidatura nunca acontece? 

            Vamos aos dados. O Brasil tem 209 milhões de habitantes e 147 milhões de possíveis eleitores. Talvez seja o país mais heterogêneo do mundo: disparidades econômicas gigantescas, multirracialidade, multiculturalidade, multirreligiosidade, multipartidarismo, extensão geográfica continental, diferenças climáticas e outro sem fim de adjetivos abrangentes que poderíamos citar. É muito difícil agradar boa parte da população com qualquer posicionamento que se tome. Então, qual o perfil do “herói nacional” do momento – Moro - ? Moralidade. 

            Moro, a princípio, entraria como o candidato de uma nota só. Defendendo algo que o eleitorado acredita ser necessário para o país e para um candidato – moral e ética. Porém, o processo eleitoral tende a esvaziar candidatos de uma nota só. O que Moro pensa sobre as mudanças da CLT, contra ou a favor? Vai se filiar a um partido de direita ou esquerda? Os empresários e os trabalhadores querem saber. E sobre aborto? As evangélicas e a ala feminista mais extremada quer saber. E sobre agricultura extensiva? O MST, os ecologistas e os produtores rurais querem saber. E sobre isenção tributária dos templos? Os pastores e os ateus querem saber. E sobre intervenção de preços ou privatização da Petrobras? Os caminhoneiros e os gestores de fundos de ações querem saber. E sobre o casamento gay? Os gays e os conservadores querem saber. E sobre reforma tributária? Quem sairá perdendo? Os paulistas querem saber, e os nordestinos também. E a legalização das drogas? É bom nem perguntar. Fora estas perguntas há problemas logísticos imensos que operam durante a campanha.

            Em suma, o processo eleitoral tende a “humanizar” o candidato. E não humanizar no sentido de dar um coração humano a ele, e sim no de expor todas as opiniões, desvios e interpretações que uma pessoa possui das questões nacionais, sendo elas fúteis ou não. Por este motivo, e outros, candidatos de uma bandeira só não aguentam uma eleição majoritária de abrangência nacional. Sair da zona de conforto sai muito caro. E não compensa. Melhor seguir sendo herói nacional do que descer para o parquinho de diversões eleitorais. Eles aprendem isto, cedo ou tarde. Mas aprendem. Escreveu certo poeta uma vez: “os grandes romances nunca aconteceram”. E seguirão sem acontecer, e é por isto que são grandes romances.