Da doença holandesa ao bilhete premiado do Pré-Sal

Por Rono Bhering 02/03/2021 - 09:26 hs
Da doença holandesa ao bilhete premiado do Pré-Sal
Nem tudo que reluz é ouro quando o assunto é óleo

                                Ouro negro. Assim era definido o petróleo no século XX. O mineral, que mais do que qualquer outro antes na história do mundo, alterava toda a geopolítica global aos movimentos do seu preço. O petróleo é um produto tão potente no panteão econômico que é o único que tem um cartel para chamar de seu: a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Sindicato que tem como principal objetivo deixar alto o preço do insumo. Não tem Organização Mundial do Comércio que reclame.

                        Mas e a Holanda? Sim. A Holanda desenvolveu o que os economistas chamam de “doença holandesa”. O país sempre teve uma economia vibrante, produtiva e diversificada. A primeira empresa multinacional do mundo fora Holandesa: a Companhia das Índias Ocidentais, fundada em 1621. Porém chegou o petróleo. A dependência da produção virou tal que o PIB holandês variava em função da commodity. O PIB antes ancorado em vários produtos e serviços, começou a se alimentar de uma comida apenas: óleo. Daí adveio o apelido de doença holandesa. Doença que ataca quase todos os países exportadores de petróleo. O melhor exemplo hoje é a Venezuela. Ela é nossa vizinha, mas você se lembra de ter comprado algo made in Venezuela? Pois é. Eles não produzem quase nada e quase nada em qualidade. O petróleo já basta (sic).

                        Já na terra de Cabral, Lula, ex-presidente, disse quando do anúncio do Pré-Sal: "o Brasil achou um bilhete premiado". Estaríamos em fase de contágio da doença holandesa? Haveria greve de caminhoneiro se não houvesse Pré-Sal? Ou, faríamos coisas diferentes se não tivéssemos petróleo? O petróleo “nosso” de fato vai nos ajudar? Não está claro qual será o nosso caminho. Por ora exportamos pouco, pagamos um preço relativo muito alto no diesel/gasolina e a Petrobrás dia sim dia não nos alimenta com algum escândalo de corrupção de magnitude planetária. É muito difícil saber quem ganha e quem perde tanto com o Pré-Sal quanto com uma empresa estatal a controlá-lo. Todo governo fica muito perigoso com uma arma deste tamanho em mãos.

                        A cada greve dos caminhoneiros eu fico a me perguntar: “bilhete premiado ou doença holandesa?”. A resposta não é simples e depende de uma quantidade infinita de variáveis. Há uma famosa frase no mercado de capitais que diz: “tal empresa é grande demais para quebrar”. Esse é o caso da Petrobrás. Não pode ser vendida, não pode quebrar e não pode virar super exportadora. Roteiro digno de Dostoiévisk: gente malvada merece morrer?